Artigo de opinião

Publicado em Edição 14

História de um sinistro

Ao longo da minha carreira de mais de 30 anos como regularizador de sinistros internacional, encontrei muitos cenários entusiasmantes, compensadores e muitas vezes exigentes. Naquele dia, enquanto redigia mais um relatório preliminar para subscritores, surgiu no meu ecrã a notícia de uma grande explosão no porto de Beirute.

Pensei imediatamente nas pessoas que teriam perdido as vidas, sofrido lesões ou outras perdas, de entes queridos, de empregos, das suas casas, e também na perturbação geral que certamente iria resultar deste evento. Também me ocorreu naquele momento que milhares de propriedades deveriam ter sido afetadas.

Tendo isso presente, contactei de imediato o meu gabinete local para o Médio Oriente para me informar sobre os nossos recursos na área, quem conhecíamos entre os regularizadores locais e, acima de tudo, quem eram os seguradores na região. Satisfeito com a resposta, teve início mais uma Aventura de Regularização.

Mobilizar uma pequena força expedicionária de regularizadores para viajar imediatamente de avião a Beirute foi a primeira medida. Com o mundo em plena crise devido à pandemia da Covid -19, a pandemia limitava os voos disponíveis para a área. Contudo, menos de 48 horas após a explosão, quatro membros da nossa equipa de especialistas tinham chegado ao país.

O primeiro desafio foi o teste Covid no aeroporto. Uma experiência desagradável, mas necessária para poderem entrar no território nacional. Enquanto tratavam dos necessários trâmites no aeroporto, o gabinete regional procurava encontrar-lhes alojamento. Uma tarefa difícil, já que a maior parte dos hotéis normalmente usados pelas empresas tinha sido seriamente danificada pela explosão e estava fechada. Com um espírito verdadeiramente pioneiro lá se encontrou um hotel, que tinha sofrido danos mas se mantinha aberto.

Enquanto tratávamos das tarefas administrativas (preparar computadores e uma ligação à plataforma informática da empresa, entre outras), fizemos os primeiros de muitos telefonemas a seguradoras locais, corretores, regularizadores e resseguradores internacionais na Europa. Fazer chegar a mensagem aos seguradores e resseguradores era de maior importância. E uma tarefa nada fácil. O que rapidamente notámos foi que o país estava em estado de choque. Os escritórios tinham sido obrigados a encerrar e a cidade de Beirute estava em confinamento. Por essa razão, a equipa local trabalhou incessantemente para contactar os mercados diretamente ou por meio de regularizadores locais para os assegurar do nosso esforço conjunto no sentido de apoiar e retirar alguma pressão numa crise daquelas que só se vê uma vez na vida. No que toca aos resseguradores, foram identificados, com ajuda dos mercados locais, seguindo-se o diálogo no sentido de reportar a situação no terreno e a magnitude da crise. A comunicação entre todas as partes envolvidas naquela altura era essencial! As redes sociais também desempenharam um papel importantíssimo ao informar os nossos clientes de que estávamos em campo e prontos a aceitar instruções, trabalhando em sintonia com os regularizadores locais.

Enquanto todo este trabalho logístico decorria, tínhamos igualmente consciência das regras da Comissão Estatal de Seguros para regularizadores internacionais a operar no Líbano. Com o auxílio de advogados locais e do departamento jurídico da empresa, bem como de advogados no Reino Unido, em pouco tempo obtivemos as licenças necessárias.

Começámos a receber instruções, muitas por via dos seguradores locais, algumas dos regularizadores locais, que se sentiam esmagados pelos acontecimentos, e outras diretamente dos resseguradores que, em última análise, assumiam exposições mais significativas. Foram postos em campo mais regularizadores agora que a dimensão da tarefa era clara para todos. O que implicou mais gestão logística e de regularizadores e a realização de mais apresentações aos players locais.

O fator económico era um desafio acrescido, uma vez que o Líbano enfrenta uma depreciação extrema da sua moeda. As taxas cambiais flutuam drasticamente de dia para dia, e a limitação pelos bancos do levantamento de dinheiro, juntamente com as taxas cambiais do mercado negro, criaram um terreno minado para os regularizadores presentes no local. Não sendo algo incomum em certos países, estes fatores acabam por tornar o processo de regularização do sinistro ainda mais complexo em tempo real.

À medida que as inspeções avançavam começámos a produzir relatórios iniciais. O verdadeiro trabalho de regularização tinha começado: recolher informação sobre planos, plantas, contratos, listas de fornecedores, serviços de reparação, consultores, arquitetos, advogados, contabilistas e outros especialistas.

Foram três meses de trabalho duro num ambiente em constante mudança e ainda abalado pela Covid -19, com inquietação entre a população, incerteza política, colapso da divisa nacional, confinamentos de curto prazo e recolheres obrigatórios. No entanto, a experiência anteriormente adquirida em catástrofes naturais foi crucial, no sentido de sermos capazes de prestar o serviço profissional de elevado grau de exigência necessário perante um evento tão devastador como o que vimos em Beirute.

Do ponto de vista dos regularizadores, a resposta célere, a comunicação, adaptabilidade, engenho, experiência, apoio e flexibilidade foram essenciais para navegar com êxito pelas águas turvas do rescaldo da explosão do porto de Beirute em Agosto de 2020.

Por último, mas não menos importante, há que lembrar sempre que, mesmo em ocorrências tão extremas, há consequências humanas. Humildade, respeito, apoio e simpatia devem sempre acompanhar-nos quando entramos noutro país para regularizar sinistros. Afinal, somos parte de um processo, parte da equipa e, portanto, parte da solução.

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AUTORES

John Donald

John Donald

Director - Advanta Global Services

Juntou-se à Advanta Global no papel de Director – Energia Global. Já tinha trabalhado como perito regularizador de sinistros de energia durante mais de 30 anos, inicialmente no Médio Oriente, e depois em Londres a partir de 1990. Mais recentemente deteve o cargo de Diretor-Geral e Presidente da divisão de energia e recursos naturais de uma grande empresa de peritagens. Tem uma ampla experiência internacional nos mercados energéticos em terra e alto mar. John Donald liderou a regularização de inúmeros sinistros de energia complexos por todo o mundo. Tem igualmente uma vasta experiência na regularização de sinistros em construção civil, perdas relacionadas com furacões, danos em propriedade, controlo de poços e perdas OEE, Perda de Rendimento da Produção (Loss of Production Income, LOPI) e perdas de exploração. No início da sua carreira, trabalhou na British Steel e em projetos de engenharia em instalações petroquímicas com sede no Reino Unido.