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Publicado em Edição 16

O flagelo da inflação

A guerra na Ucrânia e o rescaldo da Covid-19 catapultaram a inflação para números sem precedentes em muitas regiões. Vimos aumentos significativos dos preços na energia e alimentação, alargando-se as pressões a um número crescente de bens e serviços. A oferta e procura de materiais essenciais para a construção, bem como para componentes de automóveis, foram igualmente afetadas.

A escassez de matéria‑prima e falta de mão‑de‑obra contribuíram para preços em escalada junto do produtor na área da construção; calculamos uma subida média de 18%‑20% nos Estados Unidos e na Alemanha em 2022. O mesmo se reflete na indústria automóvel, onde prevemos que o aumento nos preços dos automóveis novos suba até 11% nos Estados Unidos.

Estas despesas crescentes trazem pressão aos seguros, uma vez que as empresas enfrentam o risco de maiores perdas por sinistro num ambiente de preços mais elevados.

Além disso, os ativos subvalorizados representam o risco de se criar uma lacuna significativa entre os pagamentos de sinistros e os danos reais, especialmente porque as perdas de exploração podem ser incrementadas por problemas logísticos e perturbações na cadeia de fornecimento.

Este aumento da severidade dos sinistros significa que o mercado com preços elevados continuará em 2023. Os preços aumentarão em várias linhas, incluindo as coberturas de seguros patrimoniais para empresas, ciber e responsabilidade civil. Em resposta, muitas seguradoras, incluindo a Swiss Re Corporate Solutions, têm assistido a uma procura crescente de soluções de risco inovadoras como as soluções estruturadas multilinha plurianuais , bem como o seguro paramétrico e soluções de cativas.

Inflação deverá continuar em alta

De acordo com dados do Swiss Re Institute, a inflação média deverá chegar ao seu pico em 2022. Mas, tendo atingido os valores mais elevados das últimas 4 décadas este ano nos EUA e zona Euro, continuará a ser fonte de preocupação para as empresas em 2023 e mais além, mostrando tendências marcadamente acima dos níveis das décadas recentes. Isto porque os fatores que levam à subida a médio e longo prazo da inflação vão persistir e manter a sua volatilidade. A globalização, a transição energética, as alterações demográficas, a gravidade extrema dos desastres naturais e a dívida contribuirão para a tendência da subida de preços.

Isto significa pressão sobre o cálculo de preços e os custos crescentes dos sinistros irão permanecer mesmo que a inflação comece a abrandar. Reagindo os governos com limites aos preços e outras políticas, a volatilidade subsequente criará incertezas junto das empresas. Para além disto, acreditamos que se preparam recessões inflacionárias em muitas economias avançadas de importância fundamental. 

Tudo isto em conjunto significa que o custo de cobrir os prejuízos das empresas em caso de sinistro está a subir.

As seguradoras são afectadas nos dois lados da sua conta de resultados: elevada inflação de um lado e atividades económicas mais débeis do outro. Existe redução da procura de produtos face aos preços menos atrativos, assim como custos crescentes dos sinistros. A volatilidade do mercado apresenta um desafio suplementar, quer em termos de subscrição quer no que toca à rentabilidade.

Inflação social

Outra forma de inflação faz‑se sentir nos saldos bancários das empresas.

Mudanças nas atitudes sociais e sentimento anti‑empresa, maiores montantes de compensação por imposição dos tribunais e custos de defesa crescentes elevam os riscos e despesas das empresas que vão a tribunal. Esta “inflação social” é causada sobretudo por tendências nos EUA, mas é algo que as empresas cada vez mais têm de enfrentar noutros países.

Além disso, as questões demoram mais tempo a ser tramitadas judicialmente — o que se deve em parte a atrasos provocados pela Covid. Portanto, as empresas enfrentam grande incerteza e processos prolongados.

Escolhas num mercado em endurecimento

Paralelamente à inflação, o volume e severidade crescente dos sinistros levou a uma continuação do endurecimento do mercado de seguros. Isto significa que os prémios sobem para muitos. Ao mesmo tempo, outros terão dificuldade em aceder ao seguro em certas áreas porque o apetite de risco das seguradoras pode ser mais redizido.

Em parte, isto deve‑se à subida de custos no risco catastrófico resultantes de desastres naturais mais frequentes e severos, causados pelas alterações climáticas. Mas torna‑se igualmente mais caro reparar e substituir o património, os veículos e muitos outros ativos. 

Uma vez que persistem os problemas com as cadeias de fornecimento de alguns produtos e serviços, o risco de perdas de exploração é maior.

Contra este pano de fundo, as empresas poderão decidir que uma renovação dos seguros nos mesmos termos não é a melhor opção no que respeita à cobertura.

O impacto sobre as empresas

O maior risco imediato tocará as linhas de negócio de curto prazo (short tail). As nossas previsões indicam que os seguros patrimoniais e automóvel sofrerão a maior pressão no respeitante a sinistros, devido maioritariamente ao aumento dos custos de construção. O preço da madeira subiu 85% este ano. Os preços do aço e alumínio subiram significativamente, o que levará a um aumento da severidade dos sinistros. No entanto, os riscos de médio e longo prazo (long tail), também não ficam imunes: questões relacionadas com a responsabilidade civil geral ou de produtos, incluindo a responsabilidade civil automóvel ou acidentes pessoais, serão afetadas pela inflação salarial ou dos cuidados de saúde a longo prazo.

Ao passo que a pressão sobre os seguros patrimoniais ou automóvel tende a abrandar, componentes persistentes da inflação, como os salários, significam que os custos e os sinistros provavelmente continuarão a subir.

As empresas devem preparar‑se para o facto de que os ajustes nos preços levarão a atrasos nos pagamentos de indemnizações, potencialmente exagerando o impacto de qualquer perda de exploração. Os custos das renovações também deverão subir à medida que os preços se ajustarem para refletir a severidade crescente dos sinistros.


Como podem as empresas mitigar este risco?

Existe o risco significativo de a subvalorização criar uma lacuna entre as perdas reais e os pagamentos efetuados pelas seguradoras. Com as taxas de inflação e a economia a moverem‑se rapidamente, é fundamental que os clientes trabalhem com os corretores e seguradoras para atualizar os valores dos seus ativos. Isto implica permitir que as diferenças regionais e as mercadorias que as empresas utilizam reflictam o verdadeiro valor dos prejuízos ou perdas de exploração.

As decisões baseadas em dados ajudarão as empresas a otimizar o seu risco total. Aqui podem ajudar as nossas novas soluções Risk Data & Services. Usamos um gémeo digital para mapear com precisão os ativos das empresas e depois justapomo‑los a dados especializados para modelar cenários que possam configurar estratégias de prevenção, mitigação ou transferência de risco.

Os gestores de risco devem iniciar logo que possível os seus contactos com as seguradoras e corretores . As cativas, os seguros paramétricos e as soluções de risco inovadoras podem ser soluções mais eficazes economicamente para as linhas de negócio não obrigatórias, mas levam tempo a implementar.

Por isso, podendo o próximo ano levar‑nos acima do pico da inflação, o tema fará parte da ordem de trabalhos das empresas durante algum tempo. Há que tomar decisões importantes já para evitar uma subvalorização resultante em défice pecuniário que venha a causar uma surpresa desagradável mais adiante.

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AUTORES

Andreas Berger

Andreas Berger

CEO - Swiss Re

Começou a sua carreira nos seguros em 1995, como estagiário no Grupo Gerling, onde ocupou vários cargos de gestão. Juntou-se ao Boston Consulting Group antes de regressar à Gerling em 2004 como Diretor de Negócios de Empresas e Programas Internacionais e Negócios de Afinidade. Em 2006, entrou na então recem‑criada Allianz Global Corporate & Specialty SE (AGCS) como Responsável Global de Gestão de Mercados & Comunicação, criando uma função de gestão de mercado para o segmento de clientes empresariais. Foi então nomeado Diretor Executivo da AGCS, na Unidade Regional de Londres, onde assumiu responsabilidades relativamente aos territórios do R.U., Irlanda, África do Sul, Médio Oriente e Benelux. Em 2011, Andreas Berger entrou para o Conselho de Gestão da AGCS como Diretor de Regiões e Mercados (Europa Central e Leste, Mediterrâneo, África e Ásia) e assumiu a responsabilidade pelo canal de distribuição de corretores do Grupo Allianz. Juntou-se à Swiss Re em março de 2019 como CEO da Corporate Solutions e é membro da Comissão Executiva do Grupo. Tem mestrados em Direito e Gestão de Empresas. Participa na Comissão Executiva da Sociedade Internacional de Seguros e é membro honorário da comissão de seleção do Collège des Ingénieurs em Paris.