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Ordem à la carte

A crise financeira de Setembro de 2008 esteve na origem da transformação do G20, que deixou de ser uma instituição subsidiária do G7/G8 e passou a ser reconhecida como uma instituição central alternativa ao seu criador, embora sem o substituir formalmente. Existem, aliás, três importantes diferenças entre o G7 e o G20, que ajudam a explicar algumas expetativas frustradas na gestão das grandes crises sistémicas, para além de levantarem importantes lições sobre os fóruns mais ou menos informais que vão surgindo.

Em primeiro lugar, o G7 foi sempre uma instituição política, estratégica e culturalmente homogénea, contrastando com o G20, sem valores comuns e onde a heterogeneidade política e cultural foi sempre a regra, num quadro de naturais divergências estratégicas. Em segundo lugar, o G7 limitou-se a uma comunidade transatlântica ou espaço “euro-atlântico” – alargando por um período à Rússia, entre 1997 e 2014 – enquanto o G20 tenta arrumar uma certa hierarquia regional, mas com credibilidade estratégica, talvez com exceção do Médio Oriente. Em terceiro lugar, o G20 procura desenhar uma fórmula de concerto entre as potências, enquanto acaba, paradoxalmente, por neutralizar essa possibilidade, uma vez que sete ou oito membros seria o número capaz de tornar possível um concerto entre as grandes potências.

Neste quadro geral, parece seguro afirmar que tem sido na ressaca dos grandes choques tectónicos que também aparecem as oportunidades sistémicas. Foi assim quando a grande depressão financeira atingiu o seu epicentro nevrálgico no Ocidente, em 2008-2009, e os BRICS se oficializaram um ano depois, já com a junção da África do Sul ao Brasil, Rússia, Índia e China. Parece ainda ser assim quando a segurança europeia passou a estar em xeque com a invasão da Ucrânia, numa fase em que a resposta ocidental é alvo de desalinhamentos em vários continentes, e os BRICS se alargaram a mais cinco membros (Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Irão e Emirados Árabes Unidos).

É, por isso, relevante o arco geográfico presente na cimeira de Joanesburgo de 2023, quer nos líderes presentes (perto de 70), quer nos pedidos de adesão mais ou menos formalizados (duas dezenas). Significa isto que muitos olham para os BRICS como parte de uma estratégia de integração dos médios países em centros de decisão relevantes, onde os equilíbrios com a orientação ocidental das últimas décadas são mais visíveis na economia, energia, defesa, indústria e acesso a matérias-primas críticas à competição tecnológica. Significa também isto que muitos não têm qualquer problema com a liderança chinesa, com a sua quota crescente de poder, com a dependência que resulta da constante contração de dívida bilateral, ou com a tipologia de poder que impera em Pequim. Por outras palavras, o modelo ocidental deixou de ser atrativo, o que implica uma profunda reflexão sobre o rumo tomado pelas nossas democracias nos últimos anos.

Mas talvez a tendência que esteja a marcar a tipologia da ordem internacional em formação,  seja a tentativa de disciplinar a sua fragmentação, a qual, ao contrário do arranjo bipolar da Guerra Fria e da unipolaridade que se lhe seguiu, parece ainda não assentar numa multipolaridade arrumável, mas sim numa ordem arquipelágica, multialinhada, mais fluída, transacionável, com comportamentos marcados por posições dúbias, oportunistas, de sentidos opostos, com muitos países médios a tomar opções à la carte, umas vezes com os BRICS, outras com o Ocidente, outras com quem der as melhores condições de projeção de poder. É também por isto que o alargamento dos BRICS não será uniforme, harmonioso ou coeso.

De uma forma mais abrangente, o panorama internacional contemporâneo pode ser resumido nestes termos: um ressurgimento dos conflitos intra e entre Estados, alguns com capacidade nuclear; uma mudança na geopolítica da energia que causou um pico prolongado de inflação; o aumento brutal das dívidas públicas dos países mais pobres ou mais afetados pela dupla crise da Covid e do ciclo inflacionista; e os crónicos problemas climáticos e impactos profundos na vida das populações, na demografia e nas migrações. É deste fosso entre quem tem conseguido adaptar-se e quem está a ficar totalmente condicionado, numa nova dicotomia entre norte e sul, de implicações globais ainda mais disruptivas do que a que temos observado, que vale a pena darmos uma atenção especial.

Desde logo porque o aquecimento global, acelerado na última década, tem contribuído para uma crise alimentar profunda em muitos países do chamado “sul global”, adensando a pobreza, as desigualdades e as cíclicas crises de regime, cuja conflitualidade interna ou regional se agrava com os custos elevados da importação de energia e bens alimentares de primeira necessidade. Se em 2010-2011, uma crise do preço dos cereais precipitou uma agitação em 40 países e provocou o que ficou conhecido como a Primavera Árabe, em 2021 cerca de 193 milhões de pessoas já precisavam de assistência alimentar urgente.

Entretanto, perante a crise económica que resultou do fechamento de fronteiras, rotas comerciais e desajustamento no mercado mundial durante os dois anos de pandemia, os custos do serviço da dívida acabaram por reduzir o espaço financeiro para os países responderem à altura do agravamento social. Isto é particularmente oneroso e crítico nos países mais vulneráveis às alterações climáticas, cujos custos em serviço da dívida podem chegar aos 500 mil milhões de dólares nos próximos quatro anos. Ainda durante a pandemia, os países do G20 implementaram uma Iniciativa de Suspensão do Serviço da Dívida, que ofereceu um espaço ainda limitado para que outros mais afetados pudessem respirar. Esse programa expirou em dezembro de 2021. Dois anos após o seu estabelecimento, apenas três países (Chade, Etiópia e Zâmbia) se tinham candidatado. O FMI e o Banco Mundial destacam a gravidade do problema e propõem algumas soluções, mas dizem que não podem implementá-las enquanto os credores não assumirem as suas responsabilidades. O problema vai, contudo, acumulando-se.

Numa ordem de geometria mais variável, imprevisível, transacionável e arquipelágica, mais tática do que orientada, desigualdades e fossos entre continentes e países irão expor ainda mais as fragilidades do sistema financeiro, da eficácia das organizações vigentes, dando espaço ao seu descrédito e a instituições mais maleáveis à margem das que existem. É, provavelmente, por aqui que estamos a ir. Com prejuízo para as democracias vinculadas à ordem que ainda vigora.

Texto escrito antes de 1 de novembro de 2024.


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AUTORES

Bernardo Pires de Lima

Bernardo Pires de Lima

Investigador - IPRI Universidade Nova

Bernardo Pires de Lima  (Lisboa, 1979) é Investigador Associado do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa. Foi consultor político do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, analista de política internacional da Visão, do Diário de Notícias, da RTP e da Antena 1, e presidente do Conselho de Curadores da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Foi Investigador do Center for Transatlantic Relations da Universidade Johns Hopkins, em Washington DC, e do Instituto da Defesa Nacional, em Lisboa. É autor de vários livros sobre política internacional contemporânea, sendo o mais recente O Ano Zero da Nova Europa (Tinta-da-china, 2024).