Extra Cover

Publicado em Extra Cover

Equipamentos sensíveis, seguros precisos

Tecnologia como a que referimos no último artigo (a blockchain) só é possível porque existe internet. Mas (e até ligando com um outro tema, anterior, a importância dos dados) o valor da internet não se esgota na blockchain. Hoje, falamos de IoT e de como esta tecnologia pode revolucionar o mundo dos seguros.

A nova fronteira - não tão nova assim

A consciência pública sobre a internet só começa nos anos 90, com: 1) a invenção, em 1991, por Tim Berners-Lee (CERN), do protocolo HTTP (o ADN da World Wide Web); 2) a sua subsequente disponibilização pública, livre de direitos de autor, em 1993; 3) o aparecimento, logo de seguida, dos primeiros browsers (Mosaic e Netscape).

Mas o protocolo de Berners-Lee não existiria, por sua vez, sem a resposta militar contra ataques que interrompessem comunicações de um só golpe, desenvolvida em 1964 por Paul Baran: a “computação por pacotes” (informação transmitida por pedaços ou pacotes, em vez de toda de uma vez), o modelo sobre o qual assenta a comunicação da internet, ainda hoje.

Nem a internet seria o que é, se em 1963, o psicólogo e cientista informático J. C. R. Licklider, não tivesse postulado, num memorando interno da ARPA, a ideia de uma rede (intergalática, dizia ele) de computadores comunicando informações entre si. Já em 1960, no artigo “Man-Computer Symbiosis”, em que ele defendia uma simbiose entre computadores e humanos, o conceito de rede computacional emergia, operacionalizando esta ligação intrínseca entre humano e máquina. Em 1968, ele iria ainda mais longe, requalificando o computador, de mero processador de dados, em ferramenta de comunicação.

E, se recuamos, não podemos esquecer o Memex, de Vannevar Bush, descrito no seu artigo de 1945, “As We May Think”, como um dispositivo hipotético, electromecânico, que não só armazenava todos os livros e registos de comunicações do utilizador, como já previa a navegação interna, por associações, dentro da informação arquivada no Memex - isto é, aquilo que conhecemos agora como hiperlinks.

Portanto, o que hoje surge como uma nova fronteira, onde medram progressos como a cloud, a blockchain, as redes sociais e até, em certa medida, a IA - não é exactamente novo.

Coisas inteligentes

Incrementos como a rede subaquática de cabos, que permite ligar continentes; a fibra óptica, que permite atingir volumes de dados, velocidade, fiabilidade e estabilidade de comunicações ináuditas; o wifi, a comunicação sem ligação física directa; a cloud, o armazenamento «desmaterializado» de informação e, a partir desta, a disponibilização virtual de software cada vez mais complexo - abrindo toda uma nova escala para os conceitos de Internet as a Service e Software as a Service - tudo isto contribuiu e afunilou em duas das vanguardas mais interessantes dos últimos anos: a internet das coisas ou IoT e os objectos inteligentes.

De que estamos a falar, aqui? De objectos quotidianos «recheados» de sensores, que recolhem toda a espécie de dados e que, através da internet, comunicam com sistemas externos. Tal como outrora, aquando da descoberta da electricidade electrificamos toda e qualquer ferramenta, seguimos agora «internetizando» tudo o que nos rodeia, tornando estes aparelhos muito mais autónomos, reactivos à informação que recolhem, e interagindo com outras infraestruturas tecnológicas.

“Tudo” é tudo, desde os telefones móveis inteligentes - que se tornaram tão quotidianos, que perdemos de vista o poder tecnológico miniaturizado que eles contêm - aos wearables, que monitorizam sinais vitais do seu utilizador e dão o alarme em casos de emergência a serviços médicos; lâmpadas que regulam a sua luminosidade de acordo com a hora ou termostatos que se auto-regulam; frigoríficos que mantêm um inventário actualizado e fazem a sua auto-reposição, comprando online, ou veículos que assistem o condutor, de acordo com as condições do clima, do terreno e do tráfego.

Seguros no século XXI

Para o sector segurador, a existência equipamentos assim reinventados, que recolhem e enviam dados, significa dispor de um manancial de informação inédito com as respectivas aplicações, desde o combate à fraude (os dados, não mentem, nem deixam mentir) até ao cálculo actuarial com uma precisão exponencial, a que já aludimos antes.

Entretanto, é possível também pensar no que eu chamaria de seguro algorítmico: um seguro orgânico, variando dinamicamente - desde a tarifação e Bonus Malus, às indemnizações, em caso de sinistro - consoante a noção de realidade percepcionada a partir de toda a classe de dados capturados em tempo real por todos estes equipamentos inteligentes sensorizados. Em comparação com este, o cada vez mais discutido conceito de seguro paramétrico, em que a indemnização «dispara» automaticamente, quando determinada variável atinge certo limiar, aparece como rígido. O céu é o limite.

Despertei a curiosidade? É o que se deseja, nesta rubrica, In Sure Tech We Trust: revelar todo o potencial que a tecnologia tem a oferecer às seguradoras, ainda largamente por explorar.

Outros artigos do autor:

Blockchain e seguros: um novo paradigma de transparência

O poder oculto dos dados
 

VER MAIS

AUTORES

João Barbosa

João Barbosa

- RandTech Computing

João Barbosa é licenciado em Comunicação Empresarial pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto. É Responsável de Comunicação, Marketing e Estratégia Digital da RandTech Computing e um entusiasta pelas várias vertentes da Comunicação, seja a comunicação digital, a comunicação não-verbal, a comunicação interna, o branding ou a comunicação política. É apaixonado pelas artes plásticas, pela música e pela literatura, pela ciência e pela tecnologia, pela história, pela filosofia e pela política, com o gosto pela musculação.