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100gr de prevenção valem bem mais do que 1Kg de cura

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal, um dos pilares do Estado Social, está hoje a enfrentar uma forte crise. Desde a falta de profissionais de saúde, serviços de urgência encerrados ou “a rebentar pelas costuras”, com tempos de espera muito acima dos recomendados a mais de um milhão e 700 mil utentes sem médico de família, segundo dados recentes.

O contexto económico e social do ano de 2023 foi marcado por uma série de desafios e oportunidades para o setor segurador, com especial ênfase no seguro de saúde.

À inflação sentida nos vários setores, juntou-se ainda um aumento da utilização do seguro de saúde, quer pela crescente consciencialização da importância da saúde e do bem-estar, quer pela necessidade de tratamentos mais complexos, em muito motivados ainda pelo menor rastreio e por atrasos assistenciais durante a pandemia.

A este quadro não são alheias as pressões que o Sistema Nacional de Saúde (SNS) tem sido sujeito e que, naturalmente, impactam os subsistemas complementares, como o seguro de saúde. O SNS tem tido dificuldade em atrair e reter médicos, os quais acabam por se transferir para o sector privado, a que se acresce o efeito do envelhecimento da classe com muitos a reformarem-se nos últimos anos e a recusa dos médicos a realizar horas extraordinárias para além do limite legal.

É nos cuidados primários que as fragilidades se sentem mais com o crescimento do número de utentes sem médico de família (mais de 1 milhão desde 2019, atingindo os 1,7 milhões de pessoas em 2023) e com menor atividade assistencial (17,9 milhões de consultas em 2023 contra 20,7 milhões em 2019). Haverá, assim, muitos utentes que não conseguem entrar pela porta de entrada do SNS e que, por isso, vão às urgências e/ou transitam para uma lista de espera de consultas hospitalares.

Apesar de também se verificarem fragilidades na assistência hospitalar do SNS, a atividade assistencial - consultas de especialidade e cirurgias programadas - subiu em 2023 e atingiu valores máximos. Constata-se, contudo, que a maior atividade assistencial dos hospitais do SNS tem sido acompanhada também por maior procura, em resultado do aumento das necessidades em saúde e das dificuldades de resposta ao nível dos cuidados primários, aumentando as listas de espera de consultas de especialidade e cirurgias.

Pese embora a importância primordial de ter um SNS forte, o Seguro de Saúde é já hoje uma salvaguarda essencial para indivíduos e famílias, em complemento ao SNS, e sê-lo-á ainda mais no futuro. Atualmente mais de 3,7 milhões de pessoas, a título individual ou através da sua entidade empregadora, conta com um seguro de saúde através do qual poderá realizar a prevenção e o diagnóstico precoce, assim bem como efetuar tratamentos e acompanhamento de doenças crescentemente mais complexas, por via de capitais mais elevados e da maior abrangência da cobertura de doenças graves.

Provavelmente o maior desafio dos seguros de saúde, e também de todo o sistema de saúde, é o aumento dos custos de saúde motivado por fatores estruturais como o envelhecimento da nossa população (Portugal será o 6º país mais envelhecido do mundo em 2040), a evolução negativa ou neutra dos fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crónicas (baixíssimos níveis de atividade física1, perda dos bons hábitos da dieta mediterrânea2 e manutenção de níveis elevados de consumo de bebidas alcoólicas3) e ainda o aumento dos custos das novas tecnologias e terapêuticas (como exemplo, a imunoterapia custa 5-10 vezes mais do que um tratamento oncológico convencional). A estes fatores estruturais juntam-se ainda os efeitos conjunturais do aumento da inflação e do aumento da frequência de utilização do seguro de saúde e do aumento da complexidade dos atos realizados. Todos estes efeitos em conjunto têm conduzido ao aumento dos prémios de seguro e poderão fazer com que indivíduos possam deixar de ter capacidade para os pagar.

A melhoria dos custos de saúde terá de necessariamente passar por uma aposta fortíssima na prevenção e na promoção de hábitos de vida saudáveis que poderiam prevenir o aparecimento ou atrasar o desenvolvimento de doenças crónicas, as quais são responsáveis por 70-80% dos custos de saúde. A revisão dos estudos que existem indicam o retorno enorme do investimento em prevenção: 1€ investido em prevenção tem um retorno de 14€, ou seja, uma rentabilidade sem paralelo de 1400%4. Que investimento conhecem assim?

Portugal investe cerca de 2% dos custos em saúde em Prevenção, contra 4%-6% dos custos em países como Coreia, Itália, Reino Unido, Finlândia e Canadá. As seguradoras poderão ter, neste domínio, um papel primordial, potenciando a promoção de hábitos saudáveis e o rastreio precoce numa carteira de mais de 3,7 milhões de pessoas, e que continua a aumentar.

Ao mesmo tempo as seguradoras deverão continuar a melhorar a eficiência dos seus processos e procurar mitigar o desperdício ainda existente na saúde, podendo o recurso a Inteligência Artificial acelerar esta evolução e melhorar o seu desempenho.

A aposta na melhoria dos resultados em saúde, pode também por seu lado, contribuir para tornar o sistema mais eficiente e eficaz. Neste domínio as seguradoras deverão apostar nos benefícios que os avanços na medicina personalizada, proporcionada pelos avanços da genética e da computação avançada, poderão trazer na prevenção e na profilaxia através de identificação de população em risco e gestão personalizada desse risco, mas também no tratamento de inúmeras patologias. Por último, mas não menos importante, para a eficiência e eficácia do sistema é premente evoluir para um modelo de pagamento por valor, que dê primazia aos resultados e torne rentável também para os prestadores o investimento em prevenção e profilaxia, o qual requer a participação ativa dos prestadores e dos clientes, nem sempre fácil de alcançar.



[1] Portugal apresenta o 3º pior resultado dentro dos países da OCDE, com apenas 17% da população adulta a realizar pelo menos 150 minutos de atividade física por semana, contra 40% de média nos países da OCDE e 76% na Suíça. Dados do Relatório OCDE Health at a Glance 2023.
[2] Apenas 42% da população portuguesa com mais de 15 anos consome a dose necessária de vegetais, contra 57% de média dos países da OCDE e 99% na Korea. Dados do Relatório OCDE Health at a Glance 2023.
[3] População portuguesa com mais de 15 anos consome 10,4 litros de bebidas alcoólicas por ano contra 8,6 litros na média dos países da OCDE. Dados do Relatório OCDE Health at a Glance 2023.
[4] Return on investment of public health interventions: a systematic review | Journal of Epidemiology & Community Health (bmj.com)

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AUTORES

Ana Rita Gomes

Ana Rita Gomes

Administradora Executiva - Multicare

Ana Rita Gomes, Administradora Executiva da Multicare com os pelouros de desenvolvimento de negócios, de gestão das redes de prestadores e de gestão da Saude dos clientes Multicare. Entrou no Grupo Fidelidade no final de 2016, tendo a sua experiência sido centrada no desenvolvimento do ecossistema de saúde, nomeadamente de prevenção (Medicina Online, Rastreio e Vitality), no desenvolvimento de novos serviços e novas coberturas, e ainda na introdução de melhorias em processos-chave do seguro de saúde, como a regularização de sinistros e a gestão das redes de prestadores.

Licenciada em Gestão pela Universidade Católica (1998) e MBA pela Universidade Nova (2003), conta com mais de 25 anos de experiência combinada em indústria e em consultoria, tendo os últimos 15 anos sido totalmente dedicados ao sector da saúde.